Algum animal tem animais de estimação como os humanos?

Os seres humanos desfrutam da companhia de diversos animais de estimação, mas será que essa prática é exclusiva da humanidade?

Desenvolvemos um vínculo afetivo com nossos parceiros animais, uma prática evidenciada pelo considerável número de pessoas ao redor do mundo que optam por ter pelo menos um animal de estimação. Esse apego se traduz em investimentos significativos para proporcionar o devido cuidado e bem-estar a esses membros especiais de nossas vidas.

Contudo, surge a indagação: será que outros seres não humanos compartilham dessa vontade de cuidar de membros de diferentes espécies? Existe a possibilidade de animais não humanos terem seus próprios animais de estimação?

É provável que você já tenha testemunhado diversos casos de animais “adotando” outros de espécies diferentes. Koko, a gorila, e seu gatinho “de estimação” são talvez os exemplos mais conhecidos, mas também existem registros de um elefante que estabeleceu amizade com um cachorro, um corvo que adotou um gato, um ganso que formou vínculo com uma tartaruga, e inúmeros outros casos.

Essas ocorrências sugerem que a prática de ter animais de estimação não é exclusiva dos seres humanos, e que os animais também são capazes de desenvolver laços afetivos interespécies.

“O problema é que, com pouquíssimas exceções, todos esses casos ocorrem no contexto da intervenção humana”, disse Harold Herzog, professor emérito da Western Carolina University, na Carolina do Norte. “Ou seja, ocorrem em parques de vida selvagem, ou na casa das pessoas, ou em laboratórios onde as pessoas estão fazendo experimentos para ver se os animais estão se apegando. Há pouquíssimos exemplos de formação desses tipos de relacionamentos na natureza.”

Na totalidade da literatura científica, conforme destacado por Herzog, identificam-se apenas cinco ou menos relações entre espécies, respaldadas por evidências, que se desenvolveram na natureza:

Nessas situações, a natureza exata dessas conexões não está claramente definida, como, por exemplo, se trata-se de um pai adotando um filho ou de uma espécie adotando um animal de estimação. Em termos gerais, os cientistas tendem a classificá-los de maneira semelhante, abrangendo todas essas situações sob a categoria geral de adoção entre espécies ou gêneros.

No entanto, diante das extensas horas de observação realizadas pelos cientistas, o fato de existirem apenas alguns exemplos sugere que a adoção de animais de estimação na natureza é extremamente rara.

“Eu defendo que os seres humanos são os únicos animais que têm animais de estimação, e essas raras exceções meio que provam que estou certo”, disse Herzog.

Para compreender por que possivelmente estamos sozinhos em nossos padrões de criação de animais de estimação, é essencial entender as razões que nos levam a ter animais de companhia em primeiro lugar. Beth Daly, professora associada de antrozoologia na Universidade de Windsor, no Canadá, apresenta quatro teorias principais que explicam a presença de animais de estimação na vida humana.

Uma dessas teorias sugere que ter um animal de estimação pode servir como um indicativo para os outros de que somos bons companheiros, capazes de cuidar de algo. Daly enfatiza que muitas pessoas afirmam que adquirir um cachorro e passear com ele em um parque é uma maneira eficaz de socializar e conhecer novas pessoas.

Outra teoria correlata propõe que utilizamos os animais como uma forma de aprender a cuidar de nossos próprios bebês.

Depois que o gato cinza foi atropelado por um carro e morreu, Koko ganhou um novo gato Manx listrado de tigre. Ela fez o sinal de "bebê" quando conheceu e acolheu o gato pela primeira vez, de acordo com a The Gorilla Foundation
Depois que o gato cinza foi atropelado por um carro e morreu, Koko ganhou um novo gato Manx listrado de tigre. Ela fez o sinal de “bebê” quando conheceu e acolheu o gato pela primeira vez, de acordo com a The Gorilla Foundation. (Crédito da imagem: Foto de Ron Cohn; Direitos autorais da The Gorilla Foundation/koko.org)

A prática de ter animais de estimação também pode estar associada à questão da solidão. À medida que as pessoas se isolam mais e adiam o início da parentalidade, os animais de estimação podem desempenhar um papel crucial nesse contexto.

Por fim, existe a possibilidade de que os animais de estimação sejam simplesmente uma presença positiva em nossas vidas. Contudo, tanto Herzog quanto Daly não aderem a essa ideia.

“Certamente há muitas pessoas que acham que os animais de estimação são bons para nós, mas eles só são bons para nós se não forem um problema”, disse Daly. “Quero dizer, eu ando com muletas porque fiquei paralisado quando caí do cavalo. Esse não é um bom animal de estimação, mas ele estava fazendo o que os cavalos fazem.”

“Depois de retirar as variáveis socioeconômicas e outras, a grande maioria dos estudos não mostrou nenhuma diferença entre os donos e os não donos de animais de estimação, ou que os donos de animais de estimação estão em pior situação”, disse Herzog.

Em uma análise informal de 46 estudos sobre a relação entre a depressão em proprietários de animais de estimação e não proprietários, Herzog constatou que 30, ou aproximadamente dois terços dos artigos, não identificaram diferenças significativas nas medidas de depressão entre os dois grupos.

Nenhuma das teorias mencionadas sobre a razão pela qual mantemos animais de estimação é exclusiva dos seres humanos; diversos animais têm a necessidade de cuidar de seus filhotes e podem se beneficiar da companhia. Herzog sustenta a ideia de que o que verdadeiramente nos diferencia são as nossas capacidades cognitivas.

“O motivo pelo qual os animais de estimação se espalharam tão rapidamente entre os seres humanos é que temos a capacidade de nos apaixonar por eles. E a outra coisa que temos e que provavelmente a maioria dos outros animais não tem é (…) esse senso de reconhecimento de que essas são outras criaturas que têm mentes”, disse Herzog.

A influência da cultura humana é um fator significativo nesse cenário. Existe uma razão pela qual os buldogues franceses estão amplamente presentes na atualidade, enquanto há uma década os Labradores retrievers eram predominantes.

“Os animais de estimação são contagiosos”, disse Herzog; os animais não humanos “não têm esse nível de contágio mental”.



source https://verdadeufo.com.br/2024/01/animal-tem-animais-de-estimacao.html
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